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domingo, 2 de outubro de 2022

ASPETOS DO CONTEXTO DO PENSAMENTO FILOSÓFICO DE DESCARTES

  « Esse mal do seu tempo (…) podemos exprimi-lo em duas palavras: incerteza e confusão.»  Koyré, Alexandre (1980). Considerações sobre Descartes. Ed. Presença, pág. 24 


«O século XVI foi uma época de importância capital na história da humanidade, uma época de enriquecimento prodigioso do pensamento e de transformação profunda da atitude espiritual do homem; uma época possuída por uma verdadeira paixão da descoberta: descoberta no espaço e descoberta no tempo; paixão pelo novo e paixão pelo antigo. (…) Alargamento sem igual da imagem geográfica, científica do homem e do mundo. Fervilhamento confuso e fecundo de ideias novas e de ideias renovadas. Renascimento de um mundo esquecido e nascimento de um mundo novo. Mas também: crítica, abalo, e enfim, dissolução e mesmo destruição e morte progressiva das antigas crenças, das antigas conceções, das antigas verdades tradicionais que davam ao homem a certeza do saber e a segurança da ação.»  Koyré, Alexandre (1980). Considerações sobre Descartes. Ed. Presença, pág. 24-24 

A crise da ‘Universidade’ (escolástica aristotélica) 

O termo «Escolástica» designa uma corrente filosófica medieval, dominante, sobretudo nos séculos XIII, XIV e XV, marcada pela conjugação entre razão e fé (cristã); a razão e o saber correspondiam, na interpretação escolástica, à obra filosófica e científica de Aristóteles, a fé exprimia-se exclusivamente na palavra e interpretação da BÍblia Sagrada. 
A especulação escolástica difundiu-se a partir das escolas catedralísticas e monásticas e, depois, das universidades. A Escolástica assumia um método de aprofundamento dos temas filosófico-teológicos a partir de quaestio (questões) e da sua discussão (disputatio). As disputatio tornaram-se o método do ensino universitário e o paradigma do conhecimento. As ordens religiosas dos Dominicanos e Jesuítas, dominaram a chamada «segunda Escolástica», correspondente à fase mais tardia. Descartes fará parte dos que rejeitam o domínio da Escolástica nas universidades e escolas, considerando que se ocupam de inúteis discussões que nada têm a ver com o rigor e o questionamento científico. No seu Discurso do Método e em várias outras obras, o filósofo associa o ensino escolástico à confusão e incerteza do conhecimento e advoga a necessidade de uma reforma geral do Saber (ciência). Descartes conta-nos que frequentou a escola Jesuíta (o Colégio La Fleche) e transmite-nos quão má considerou esta experiência: 
«Desde a infância fui alimentado nas letras e tinha um extremo desejo de as aprender, porque me persuadiram de, por meio delas, poder adquirir um conhecimento claro e seguro de tudo o que é útil à vida. Mal terminei porém, os estudos pelos quais se costuma ser acolhido na classe dos doutos, mudei inteiramente de opinião. De tantas dúvidas e erros me via embaraçado que me parecia não haver tirado outro proveito do procurar instruir-me senão o de ter descoberto mais e mais a minha ignorância. E, todavia, frequentara uma das mais célebres escolas da Europa, onde cuidava existir homens sapientes, se é que existem em algum canto da Terra.»                                          DESCARTES, Discurso do Método                  
« Comprazia-me, sobretudo, com as matemáticas, pela certeza e evidência das suas razões (…). Sobre a filosofia direi que, vendo-a cultivada pelos mais excelentes espíritos que desde há vários séculos viveram e, todavia, nenhuma coisa nela haver sobre a qual não se discuta – por conseguinte, que não seja duvidosa - , não me chegava a presunção de esperar ter nela melhor êxito do que os outros. E considerando como, a propósito de uma mesma matéria, podem  existir várias opiniões defendidas por doutas pessoas sem que nunca possa haver mais do que uma verdade, direi que tomava quase como falso o que apenas era verosímil.»                                                          DESCARTES, Discurso do Método 

O ‘novo’ mundo 




 Sobretudo, nos séculos XV e XVI, quando emergiu na Europa o Renascimento Cultural, uma nova conceção de mundo ou de “cosmos” passou a surgir, associada a vários aspetos
 - uma nova conceção do nosso mundo, a partir dos Descobrimentos marítimos: novos continentes, povos e costumes; 
- uma nova conceção do cosmos (universo), com a decadência da ciência ptolomaica1 (geocentrismo) e a afirmação do heliocentrismo, a partir de Nicolau Copérnico2 .
O universo passa a ser encarado como algo que pode ser compreendido matematicamente e explicado. O papel de Galileu 3 na sistematização dessa conceção revolucionária foi decisivo, já que ele foi um dos primeiros a aperfeiçoar instrumentos técnicos, como o telescópio, para melhor observação dos fenómenos. Foi Galileu também que deu um novo rumo às pesquisas sobre o movimento, com a elaboração da lei da inércia, e recuperou as teses de Copérnico sobre a translação terrestre. A junção entre observação, experimentação e formulação de uma explicação teórica e matemática, constitui o alicerce da ciência moderna, que se forjou sob o signo da Revolução Científica do século XVII.



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1- Cláudio Ptolomeu de Alexandria (90 – 168) que desenvolve a imagem geocêntrica do mundo, já defendida por Aristóteles. 

2- Nicolau Copérnico, astrónomo e matemático polaco (1473-1543) desenvolveu a teoria heliocêntrica que colocou o Sol como o centro do Sistema Solar, contrariando a então vigente Teoria Geocêntrica (que considerava a Terra como o centro). É considerada como uma das mais importantes hipóteses científicas de todos os tempos, tendo constituído o ponto de partida da astronomia. A partir de Copérnico, a hipótese heliocêntrica foi defendida e desenvolvida por Galileu, Kepler, Descartes e Newton, dando origem à Física moderna. 

 3- Galileu Galilei, físico, matemático e filósofo florentino (Florença, Itália) (1564-1642)


sábado, 13 de janeiro de 2018

Filosofia Explicada: A Criação de Mais-Valia - Karl Marx

Introdução

 Karl Marx foi um filósofo, economista, historiador, sociologista, teórico político, jornalista e revolucionário socialista.
 A sua obra é das mais influentes, tanto a nível filosófico, como a nível político-económico, tendo como obras mais conhecidas O Manifesto do Partido Comunista, e o seu magnum opus, O Capital.
 N'O Capital, Marx faz críticas à sociedade capitalista, especialmente ao modo de produção capitalista e ao seu desrespeito pelos trabalhadores e pelo seu produto.
A mais-valia é um termo Marxista para descrever o que chamamos de lucro. No presente artigo iremos ver como Marx diz que se origina a mais-valia.
  

A Mais-Valia

 (Nota: Os valores aqui utilizados são meramente ilustrativos, e aproximados aos que Marx diz n'O Capital. Foram também mudados os nomes de francos para euros, com o objetivo de melhor compreensão.)
 Investigaremos o processo de produção de um casaco, para o qual necessitamos de um quilo de linha.
 Marx começa por nos dizer que o preço pelo qual o capitalista adquire uma matéria prima x, com o objetivo de o transformar, por meios de indústria, em produto y, será idêntico ao valor de produto y, após o processo industrial. Ou seja, se o capitalista adquirir dez quilos de algodão por dez euros, e obter desses dez quilos um total de dez quilos de linha, o valor dessa quantidade de linha continuará a ser de dez euros, inicialmente.
 De seguida, vem o valor do conjunto de máquinas necessários para a produção de linha. O exemplo dado por Marx é o de fusos necessários para a transformação do algodão em linha.
 Marx diz ainda que se o capitalista optar por usar, por exemplo, fusos feitos de ouro, e não de ferro, apenas se acrescenta o valor que se pagaria pelos fusos de ferro, visto que este é o valor correspondente ao tempo socialmente necessário para produzir o produto final. Explicando isto melhor: Marx diz que usar fusos de ferro serviria perfeitamente para produzir produto y, logo, a utilização de fusos de ouro trata-se de uma opção, e não de algo necessário. O valor extra que o capitalista paga pelos fusos de ouro não tem, na verdade, impacto verdadeiro sobre o produto. Isto deve-se ao tempo de produção dos fusos, que ocorre em paralelo, noutra fábrica e através da mão-de-obra de outros trabalhadores, ser inferior, mas produzir exatamente o mesmo resultado. Por isto, o tempo socialmente necessário influencia o valor, estabelecendo sempre o valor "real" de dito produto o mais baixo possível.
 Entram então os trabalhadores. Imaginemos que o trabalhador é pago três euros por dia, e num tempo total de seis horas consegue capital suficiente para viver. Ora, se numa hora de trabalho, o operário transformar 1.75 quilos de algodão em 1.75 quilos de fio, temos que em dez horas conseguirá transformar os dez quilos de algodão em dez quilos de fio totalmente.
 Se tomarmos que os fusos custaram ao capitalista dois euros e o algodão comprado equivale a um dia de trabalho (6 horas, neste caso), temos:
 10 (valor do algodão que já inclui o tempo de trabalho) + 2 (preço dos fusos) + 3 (salário pago aos operários e valor socialmente necessário) = 15.
 E que:
 10 (valor do fio) + 2 (preço dos fusos) + 3 (salário pago aos operários e valor socialmente necessário) = 15.
 Isto significa que o capitalista não consegue lucro absolutamente nenhum com o processo industrial!
 Ora, segundo Marx, o que o capitalista faz é algo simples: Aproveita-se do facto do operário só necessitar dos três euros diários (que ganha ao longo de seis horas), e fá-lo trabalhar, por exemplo, doze horas pelo mesmo valor.
 É através deste processo que os capitalistas geram a mais-valia.

Fonte:

MARX, Karl, O Capital Edição Popular, Edições 70