Eu tenho de admitir algo. Eu tenho uma admiração muito profunda pelo país que é o Japão. Apesar de nunca ter
visitado esta nação, o meu interesse surge desde muito jovem a partir de
programas de desenhos animados de origem japonesa, tendo desenvolvido à medida que pesquisava na internet mais informação sobre o povo nipónico. Recentemente, procurava encontrar alguma informação sobre filosofia feita no Japão. Algo básico chegava, queria apenas contextualizar-me sobre o assunto.
Por sorte, foi-me
recomendado por um vizinho o livro Caderno de Tóquio, de Porfírio Silva, um diário que relata algumas das experiências vividas por este filósofo português no território nipónico durante a sua estadia em trabalho entre maio e
setembro de 2013.
SINOPSE
Porfírio Silva procura escrever um diário que
dissipe ideias feitas e tornar claro um Japão menos falado, mais sóbrio,
que fuja às descrições feitas por guias de viajem.
O autor, Porfírio Silva
Entre vários temas, é abordado principalmente:
O interesse dos
japoneses pela robótica e a dimensão filosófica associada ao
desenvolvimento desta área;
Filosofia nipónica;
As diferenças que os
estrangeiros sentem nos primeiros dias da sua estadia, nomeadamente o
civismo e a cortesia dos locais;
A religião budista, xintoísta, e por
vezes a hindu;
Curiosidades sobre o património e cultura japonesa como o
origami, o sumo eo teatro nacional;
Os diferentes sistemas políticos japoneses ao longo dos anos.
ANÁLISE E RECOMENDAÇÃO Sendo um livro que relata uma viagem, encontramos uma descrição informal dos acontecimentos, não existindo, no geral, uma sequência a seguir para a compreensão dos conceitos abordados. Em termos de informação, não é demasiado exaustivo nas descrições e mantém uma escrita fácil de compreender. Quanto à informação que procurava sobre filosofia japonesa, o autor descreve o pensamento deste povo como sendo muito relacionado às artes e à religião. Associado a isto, o grande desenvolvimento do pensamento filosófico dá-se com a restauração Meiji (aprox. séc. XX), quando o Japão tenta imitar as qualidades boas do ocidente. Portanto, o pensamento nipónico está a passar por uma fase de desenvolvimento, de busca de identidade. Dentro do livro, as secções que gostei mais são provavelmente as descrições do teatro Bunraku (uma espécie de teatro de fantoches) e a visita aos laboratórios de robótica em Osaka (no qual se produzem robôs com um aspeto muito próximo ao do ser humano), especialmente o primeiro, que explica detalhadamente todos os conceitos associados a este tipo de encenação, apoiando a explicação com imagens de maquetes e figuras do local onde se informou.
À esquerda, teatro Bunraku, e à direita, um exemplar de robôs humanóides desenvolvidos em Osaka
Sabendo que se trata de um diário, não tenho propriamente críticas negativas a realizar. Portanto, recomendo a leitura deste livro, especialmente para pessoas com interesse no país do sol nascente.
Esta é uma carta de amor. Não vejo maior
homenagem, do que a expressão (ou tentativa da mesma) do
sentimento que flui através dos meus neurónios. A todas as caras que, nos meus
meros e insignificantes dezasseis anos de existência, contemplei. A todos os
elementos deslumbrantes da Natureza, que constroem perfeitas expressões a meus
olhos. A todas as ondas de som que, magnificamente combinadas, chegaram aos
meus ouvidos. A cada porção de ar que já inspirei, e devolvi posteriormente ao
mundo que me rodeia. A cada átomo de oxigénio, nitrogénio, e carbono, presentes
nessa minúscula porção. A cada composto de ácido desoxirribonucleico presente
no meu ser, definindo precisamente a essência do que eu sou. A mim, e à
humanidade que é tão, mas tão pequena. A cada objeto em que toquei, ou senti a
ilusão de que toquei, porque na verdade, nunca o cheguei a fazer. Ao
conhecimento que me concedeu a consciência disso. Ao ser único, diminuto, mas
de complexidade sublime que foi capaz de me transmitir esse conhecimento, e a
todos os que vieram antes dele. À leitura. A todo o conhecimento que perdura
ainda por adquirir, e por todo o que assim permanecerá. A cada planta existente
na superfície terrestre, e à junção de todas estas, permitindo a evolução como
a conhecemos. A todos os oceanos. Ao aglomerado esférico de silicatos e metais
onde a raça humana prosperou. À estrela fulgurante à volta da qual orbito, e à
galáxia que a contém, juntamente com mais 100 mil milhões de outras. Ao colapso
da estrela de que somos todos feitos. À crescente vastidão. Ao vazio. À beleza
inimaginável de tudo o que já existiu, existe, ou alguma vez existirá.
Existem tantas estrelas no universo como o total de células existentes em
todos os seres humanos do nosso planeta. Se uma só deu origem a tanto, o
que mais poderá existir? Tantos mundos que chegaram ao fim, e tantos mundos à
espera de ser criados.
Esta é uma carta de amor ao Cosmos. Esta é
uma carta de amor à ordem que compreende o meu caos.
Esta é uma carta de amor à consciência. Eu
estou aqui, agora. Eu estou viva. Nasci com a capacidade de pensar, e penso. Sinto
cada arrepio alastrar-se pela superfície de tudo o que sou, e as lágrimas
escorrerem-me pela face. Eu estou viva. Cresci na companhia de um sentimento
imenso de vazio, de alienação e distanciamento perante a totalidade do que me
rodeia, de uma falta de propósito, de um trilho encoberto. Esta é uma carta de
amor à ciência, pois sem esta, nada seria eu. Esta é uma carta de amor à
ciência, uma vez que esta me atingiu como um relâmpago atinge uma torre durante
uma tempestade, e desta forma, acendeu uma vela no meu caminho. Este é um
agradecimento, com a mais profunda sinceridade possível, à audácia de quem a
estudou, e de quem a transmitiu por gerações incontáveis; pois sem a ciência,
nunca poderia ter percebido, e aceitado o meu tamanho, a minha vivência, o meu
lugar no vasto universo; que é, nada mais, nada menos do que o que eu fizer
dele. Reconheço a sorte em estar viva. Apaixono-me pela mais pequena das
partículas, e pelo conjunto de tudo o que estas concebem. Como poderia não?
Nada provoca maior satisfação à minha pobre alma que a perceção de que somos
todos e tudo descendentes de estrelas. À escala do cosmos, todas as questões e
dilemas do quotidiano tornam-se desprezíveis. Nada disso importa na vastidão do
universo, e isso traz-me uma serenidade colossal. Em contrapartida, os átomos
que constroem as moléculas que formam cada ser humano, tiveram origem num
pequeno ponto que se expandiu, originando tudo o que hoje conhecemos, e o que
temos ainda por descobrir. De certa forma, somos gigantes, sistemas complexos
de interações por sinapses. Cada um de nós alberga um universo dentro de si.
Sinto uma sensação crescente de maravilha. Não existem palavras
suficientes em todas as sete mil línguas humanas juntas para descrever e
expressar o amor que eu sinto. Obrigada.
David
Hume nasceu em Edimburgo, em 1711[1].
Estudou Direito, mas dedicou-se à Filosofia, à História e Diplomacia; chegou a
ser subsecretário de Estado.
Levou
o Empirismo Inglês ao seu estádio de
maior radicalidade. Rejeitou as Ideias
Inatas e defendeu uma perspetiva profundamente cética. Proclamou que não conhecemos mais dos que as nossas
próprias Impressões e Ideias.
Disse
que a Política e a Ética não se sustentam em princípios racionais, mas na utilidade comum e no sentimento de simpatia, através do qual
somos capazes de nos colocarmos no lugar dos outros.
Fernando
Savater:
Vamos hoje falar de um filósofo representativo de um
século que é, talvez, um dos séculos mais extraordinários, do ponto de vista
intelectual, de toda a grande aventura humana. O século XVIII, século do
Iluminismo, o chamado século das Luzes. Normalmente, quando falamos deste
século, centramo-nos em França: no Enciclopedismo (francês), em Voltaire,
Rousseau, etc. Mas, quem sabe, a figura individual mais notável, mais destacada
deste século tão extraordinário, terá sido um filósofo escocês, nascido em
Edimburgo – localidade muito mais pequena do que Paris, mas que teve um grupo
extraordinário de pensadores com grande importância no século XVIII. E o mais
importante deles, foi David Hume.
Hume não partiu da Filosofia; chegou à Filosofia. Foi
formado em Direito e foi também um extraordinário historiador[2]
e finalmente um grande filósofo.
Já John Locke havia insistido que não nos podemos
fundamentar em nada de inato – ideias, fundamentos – mas que, pelo contrário,
todas as ideias que temos, recebemo-las do mundo [exterior ao sujeito]. Este Empirismo (dizer que o que conta
como fonte do conhecimento é a empiria,
a experiência) é
absolutamente radical em David Hume.
Para David Hume são as impressões que recebemos do mundo
[através da experiência] que são as únicas fontes do conhecimento. Deste
empirismo radical nasce a obra deste filósofo sagaz, prudente e audaz nas suas
posições intelectuais – tanto que nem sempre podia afirmar claramente tudo o
que pensava sobre diversos assuntos, pois chocava as crenças estabelecidas na
época.
David
Hume nasceu na Escócia, de uma família não muito rica, mas pertencente à
nobreza. Ficou órfão de pai aos dois anos e foi criado por sua mãe, juntamente
com suas irmãs e seu irmão mais velho que, de acordo com os costumes da época,
herdou as terras da família. David foi, assim, destinado à carreira «das Leis»,
mas os seus verdadeiros interesses eram literários; desde pequeno que se
dedicou a ler os grandes autores gregos e romanos. Obtido o seu título de
advogado logo começou a exercer esta profissão, em Bristol. Porém, pouco tempo
depois decidiu viver do que escrevia e viajou até França, onde passou a viver
em 1732. Instalou-se em La Fléche, em cujo colégio jesuíta havia estudado René
Descartes.
Redigiu, nesse período, a sua primeira obra importante: Tratado
da Natureza Humana.
Acreditava que esta obra lhe traria celebridade e fortuna, mas, na realidade,
não teve grande êxito, o que o dececionou profundamente. No seu Tratado, Hume partia da teoria do
conhecimento de Locke e radicalizava o seu Empirismo. Criticava certos princípios
que, todavia, operavam na obra de Locke: o eu,
a substância, a causalidade e a indução. Para efetuar esta
crítica Hume realizava uma descrição rigorosa do conhecimento: quando conheço
um objeto tenho certas sensações ou Impressões e certas Ideias,
que são como a ‘cópia’ das Impressões; cópia que pode dar-se como memória
(recordação), como projeção imaginativa (imaginação) ou como conceptualização
abstrata.
As Ideias são, então, representações mentais. De modo que, a partir das
Impressões se constituem as Ideias Simples e, a partir de associação
de Ideias Simples, formamos as Ideias Compostas ou Complexas. Todas
as Impressões e Ideias geram em nós a convicção de que realmente existem os objetos externos que as provocam. Mas, na
realidade, do que posso estar de facto seguro, é de que tenho uma sensação ou
Impressão e que isso gera a crença de que existe realmente uma
realidade exterior [o Mundo].
Não obstante, o objeto que conheço não é exterior a mim, mas está, sim,
na minha consciência[3], pois
consiste somente num conjunto de Impressões e Ideias. Se eu afirmo que as
minhas Impressões e Ideias correspondem a um objeto real, faço-o por um ato de crença.
Hume afirma que nos iludimos, que criamos certas Ideias às quais não
correspondem Impressões, como:
- a ideia de causa-efeito [causalidade];
- a ideia de espaço e tempo;
- a ideia de substância.
Todas estas ideias são fundamentais para a Ciência; ainda que sejam
ilusórias, a Ciência apoia-se nestas ideias básicas. Sobre elas construímos o mundo
do conhecimento, ainda que não haja Impressões que lhes deem a validade
objetiva que parecem ter, certamente há que reconhecer que o homem não pode
viver fora de uma certa crença instintiva na realidade – mas, no fundo, o que
entendemos por realidade, reduz-se a um certo número de Impressões.
(...)
David Hume, que foi uma das mentes racionais mais poderosas da sua época
concede, na sua Filosofia, grande importância ao que não é estritamente
racional: as emoções, a simpatia, os movimentos anímicos são fundamentais para
a vida e para a sociedade humana. É interessante verificar que, perante a
imagem estereotipada de que as grandes inteligências sempre são ‘frias’, há
evidências de que alguns dos maiores talentos racionais da história da
humanidade, compreenderam a importância da dimensão do ‘irracional’ na vida
humana. E a ideia de Hume é que tudo é, por nós, recebido do mundo que nos
rodeia, e que recebemos tudo por meio das nossas capacidades: dos sentidos, que
são as ‘janelas’ que, em nós, se abrem para o mundo. Tudo o que não podemos
comprovar, o que não podemos verificar [pela experiência], realmente não
podemos dizer que exista.
Entretanto podemos fazer a ‘introspeção’ de que falava Descartes:
busquemos o subjetivo, busquemos a certeza [a verdade absoluta]. Ora, Hume
mostra-se descrente e crítico desta posição cartesiana, do Eu penso, logo existo. Descrê dessa certeza: portanto, pensas; mas
porque existes? Porque é que tem de existir um sujeito (um eu) nesse pensar?
Não poderia ser um pensamento sem sujeito [substancial]? Quando digo «chove
descrevo que algo ocorre, mas não é necessário, a partir daqui, um sujeito da
chuva – que algo chove, um sujeito do ato de chover.
Não. Para Hume não podemos pensar algo como um «eu», um núcleo fixo e
estável NO QUAL AS NOSSAS Impressões são ‘depositadas’; somente posemos afirmar
que temos Impressões, que temos pensamentos, que temos sentimentos. O ‘eu’ é
uma construção que fazemos para suportar todas as Impressões, mas não é algo a
que possamos chegar através dos sentidos.
Até este ponto radical, ao mais radical que pode chegar o ceticismo – o
questionamento do ‘eu’ –, chega o ceticismo de Hume
A
causalidade, a substância e o eu, segundo David Hume, são somente crenças, pois
que, de facto, jamais temos experiência delas. Se me atenho somente à
experiência, devo dizer que o ‘eu’ me aparece como uma amálgama de sensações,
como um puro fluir de atos de consciência e não como um eu substancial. A ideia
de substância, por seu turno, dissolve-se num conjunto de sensações que nós
agrupamos espácio-temporalmente; e quanto à causalidade, é considerada como uma
conexão necessária entre dois ou mais fenómenos: O fenómeno antecedente é
chamado ‘causa’ e o fenómeno consequente é chamado ‘efeito’. Ao falarmos de
conexão necessária, isto implica que à causa se segue inevitavelmente[4] o
efeito.
Se
considerarmos o que ocorre quando uma bola de bilhar toca noutra após uma
tacada, observamos um movimento em que a 1º bola toca na 2ª, e esta
movimenta-se e toca na 3ª. Consideramos tratar-se de um movimento causa-efeito,
mas não temos a experiência desta relação[5] .
Somente podemos afirmar a sucessão temporal e a continuidade espacial. Mas a
causalidade, não: é apenas uma crença
fundada no hábito.
Este
problema da causalidade está imediatamente ligado ao da indução:
Não
podemos daí concluir que todos os cisnes são brancos. De modo que a indução é
um método que tem um gravíssimo problema, no que diz respeito à sua
fundamentação: toda a tentativa de codificação da indução parte do princípio de
regularidade da natureza, que não é um princípio derivado da experiência mas,
ele próprio, uma inferência indutiva.
Esta
análise de Hume desemboca no ceticismo radical: todo o conhecimento científico
se apoia, segundo ele, em meras crenças. As únicas certezas que me são
permitidas são, por um lado, as que derivam da descrição das minhas Impressões
e das suas relações com as minhas Ideias e, por outro, as que se manifestam nas
relações quantitativas das matemáticas.
[1]Cerca de um século depois do nascimento de Descartes (1596-1650) e 65 anos
após a sua morte.
[2]Escreveu uma obra de grande dimensão e qualidade, em 8 volumes: História de Inglaterra. Durante parte do
século XIX foi mais conhecido como historiador do que como filósofo, embora o
seu contributo para o desenvolvimento do pensamento filosófico, nomeadamente ao
nível da Epistemologia, seja incontornável. Kant referir-se-lhe-à como a um Mestre,
dizendo que foi a leitura das suas obras filosóficas que lhe permitiu acordar do sono dogmático e elaborar a
sua filosofia crítica. (nota da docente de Filosofia)