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domingo, 5 de novembro de 2023

ENSAIO FILOSÓFICO: ARTE OU NÃO ARTE?

 

ARTE OU NÃO ARTE?

Ano Letivo 2022-23

Professor Rui Brejo

Maria Francisca Salgueiro nº19 11ºH


INTRODUÇÃO 

O problema da definição de arte está no centro de um antigo debate, assim como muitas outras perguntas: “O que é a arte?”; “O que é que todas as obras ou ações às quais chamamos arte têm em comum?”; “O que é que distingue a arte daquilo que não é arte?”; “Será possível definir a arte?”; “Será importante definir a arte?”. Todas elas são coerentes e suscitam-nos alguma curiosidade. Será que podemos considerar o desenho de uma criança de cinco anos arte? Ou apenas as obras que estão nos museus?

Foquemo-nos na última pergunta daquelas que foram enumeradas: “Será importante definir a arte?”. Para responder à mesma, vejamos um excerto da notícia “Empregada de limpeza confunde arte com lixo” publicada no JN a 29 de outubro de 2015: “Uma empregada de limpeza confundiu, no sábado, uma instalação artística com lixo e limpou a sala onde a peça estava exposta. A obra de arte foi entretanto reposta e abriu ao público na terça-feira, no Museu de Arte Contemporânea de Bolzano, em Itália.”[1] Talvez se existisse algo que delimitasse a arte de forma concreta, este incidente não teria ocorrido. Mas será a arte tão objetiva ao ponto de poder ser delimitada? Será possível comparar a arte a algo tão rigorosamente científico? São estas as questões às quais pretendemos responder ao longo deste ensaio filosófico.

A TEORIA FORMAL DA ARTE 

Há milhares de anos que diversos filósofos procuram soluções para o problema da definição de arte. Para uns, aquilo que define arte são as propriedades intrínsecas de um objeto. Fazem parte das teorias essencialistas da arte. Para outros, aquilo que caracteriza uma obra de arte são propriedades extrínsecas ao objeto, fazendo parte das teorias não essencialistas.

No entanto, na minha perspetiva, existe uma que se destaca dentro das teorias essencialistas: a teoria da arte como forma.

A teoria formalista diz-nos que não importa a emoção que o artista quis revelar na obra, mas sim o sentimento que esta desperta no público. Qualquer obra que classificamos como arte tem o poder de despertar em nós, espetadores, uma emoção estética.

Surge assim uma nova questão: O que é a estética?

A estética, segundo a filosofia é uma sensação que remete para o belo, sublime e que nos permite distinguir a graciosidade e a beleza do desagradável e feio. Segundo Immanuel Kant[2], a capacidade de sentirmos uma emoção estética é a priori e universal. Todos nós, seres-humanos, temos a capacidade de sentir, experienciar e formular juízos de valor. Podemos experimentar a emoção estética enquanto criadores ou enquanto observadores.

 Então e para nós, seres humanos, o que é que é considerado “belo”?

A verdade é que, ao longo da história, o nosso conceito de beleza foi sofrendo alterações. No entanto, mesmo que os nossos gostos pessoais e contemporâneos mudem, há certas coisas que se mantêm atemporais. São essas características que já são de tal forma tão naturais para nós que nos podem ajudar a identificar o que é ou não belo.

A principal característica é a simetria. Desde os primórdios da humanidade que o nosso cérebro reconhecia simetria na natureza e era isso que nos ajudava a manter em segurança. Conchas, árvores, folhas, flores e até mesmo animais: por ser tão comum na fauna e flora, encontrámos na simetria uma espécie de abrigo. Era uma ajuda para os nossos ancestrais conseguirem avaliar os perigos e reagir mais rapidamente.

Esta característica servia também para analisar seres humanos. Não só para escolher o parceiro mais fértil e saudável, como para reconhecer inimigos. Existe uma zona no nosso cérebro chamada “giro fusiforme”, que tem a capacidade de reconhecer rostos. Essa capacidade é, nada mais nada menos do que conseguir reconhecer a chamada “proporção divina”[3]. A “proporção divina” ou “número de ouro” é utilizada desde há séculos e está presente por todo o lado. Temos, no caso da pintura, a obra de Leonardo Da Vinci La Gioconda (1503-1506).

La Gioconda, Leonardo Da Vinci (1503-1506)

Agora que compreendemos o significado de belo, podemos retomar à teoria da arte como forma. Esta foi proposta em 1914 pelo filósofo inglês Clive Bell[4] (1881-1964), sendo uma reação às alterações radicais que ocorreram na arte europeia. Os artistas, principalmente pintores, passaram a interessar-se pela exploração de diferentes linhas, formas e cores, conceitos mais abstratos. Deixou assim de ser necessário representar ou exprimir algo numa obra para que esta seja reconhecida como arte. Como referido anteriormente, a teoria formalista diz-nos que uma obra só pode ser considerada arte se for um artefacto e se exprimir uma emoção estética. Podemos dizer de forma resumida que:  X é uma obra de arte, se e só se, X for concebido principalmente para possuir e exibir forma significante.

O autor entende por forma significante a organização estruturada de linhas, cores, formas, volumes, entre outros aspetos.

“Que propriedade é partilhada por todos os objetos que nos causam emoções estéticas? (...) só uma resposta parece possível – forma significante. São, em cada um dos casos, as linhas e cores combinadas de um modo particular, certas formas e relações de formas, que suscitam as nossas emoções estéticas. A estas relações e combinações de linhas e cores, a estas formas esteticamente tocantes, chamo Forma Significante «forma significante» ; e a «forma significante» é a tal propriedade comum a todas as obras de arte visual.”[5]

A teoria formalista é assim um confronto direto entre o sujeito e a forma, é necessário que haja alguém para a apreciar.

Esta teoria é facilmente posta em prática. Pensemos nos diferentes tipos de arte:

- Pintura. As combinações das linhas, formas e cores são aquilo que nos fascina;

- Música. A organização sonora que nos permite experienciar diferentes tipos de emoções;

- Literatura. A estrutura narrativa, a combinação de palavras que nos teletransporta para outro mundo que não o nosso;

- Dança. A composição de figuras e movimentos, várias vezes acompanhada de belas sinfonias;

- Escultura e Arquitetura. Os traços e contornos, as simetrias das formas.

Podemos ainda observar outro exemplo a favor desta teoria. Como referido anteriormente, todos nós temos a capacidade de reconhecer o belo, bem como de formular juízos de valor. Assim sendo, facilmente conseguiríamos reconhecer uma obra projetada com a intenção de exprimir uma emoção estética de uma que não tinha essa intenção. Foi então realizada uma experiência onde várias pessoas foram convidadas a distinguir pinturas abstratas reais de falsas. Algumas eram originais de Mondrian[6] e outras de Pollock[7], que foram pintadas com base em padrões e regras rígidas, ao contrário das imitações. A maioria escolheu as originais de ambos os pintores, ainda que os seus estilos sejam muito diferentes. Esta experiência reforça a ideia de que existe algo em nós que consegue sentir emoções estéticas e a identificar o belo, mesmo que de forma inconsciente.

                                                               Convergence, Pollock (1952)


                                         Composition with Red Blue and Yellow, Mondrian (1930)            

        Esta teoria permite-nos também distinguir as obras de arte dos objetos naturais. Se há algo que tanto a arte quanto a natureza têm em comum é a simetria e a verdade é que o mundo natural pode sim transmitir-nos uma emoção estética. No entanto, esses elementos não foram criados nem pelo ser humano nem com a intenção de exibir uma forma significante.

CRÍTICAS À TEORIA FORMALISTA E RESPOSTA ÀS OBJEÇÕES

Embora a teoria formalista seja aquela que, a meu ver, melhor caracteriza o conceito de arte, existem algumas objeções.

Em primeiro lugar, os críticos afirmam que “A teoria formalista não define de modo satisfatório forma significante”. A argumentação dos formalistas é feita em círculo, dizendo que a forma significante é aquilo que desperta as nossas emoções estéticas e que estas apenas são sentidas na presença da forma. Acrescentam ainda que o significado de “forma significante” não é explícito nem objetivo.

Outra das críticas apresentadas é: “O conteúdo e os contextos das obras são relevantes para a apreciação da arte”. Analisar se algo é uma obra de arte passa apenas por apreciar a sua forma, sendo o conteúdo da mesma irrelevante.

Todavia, estas objeções não são bem-sucedidas. Observemos a primeira crítica: “A teoria formalista não define de modo satisfatório forma significante”. Como foi possível compreender ao longo do ensaio, existe algo a priori em nós que nos leva a saber se tal obra é bela ou não. Podemos ter uma maior ou menos sensibilidade no que toca à emoção estética, mas a verdade é que conseguimos reconhecer se algo é ou não belo. Além disso, o conceito de arte não deve ser objetivo, pelo que não é necessário definir rigorosamente “forma significante”. Se o fizéssemos, estaríamos a cortar as asas da liberdade de expressão do artista.

Já a segunda crítica é, das duas, a mais plausível. No entanto, também pode ser respondida. É verdade que o conteúdo é importante, mas este é um complemento da sensação estética que sentimos. Vejamos um exemplo: se eu escutar uma música com uma melodia lindíssima cantada numa língua estrangeira que eu não domino, a minha primeira impressão será ao escutar a sinfonia. É a maneira como os sons estão organizados que me traz uma nova sensação, um novo sentimento, não a letra. O exemplo aplica-se também para o oposto: se eu escutar uma cacofonia que tenha uma letra muito bonita, a minha primeira impressão será, como esperado, a desorganização sonora. É neste sentido que a teoria da forma responde, por muito que o conteúdo seja bom, é necessário que a forma significante nos transmita a emoção estética que tanto falámos ao longo do ensaio.

CONCLUSÃO

Se por um lado é importante encontrar uma definição de arte para nos ajudar a nível político e organizacional, por outro, devemos continuar nesta busca pelos limites artísticos. A verdade é que há milhares de anos que se fazem obras de arte e, até hoje, não há um consenso naquilo que define uma obra de arte de um mero objeto. Nós, seres humanos, tivemos a capacidade de ir à lua, mas não conseguimos encontrar limites para algo tão próximo de nós? Talvez a resposta a esta pergunta seja simples: é possível que existam sim critérios transversais às obras de arte - como vimos neste ensaio, o caso da simetria, mas a verdade é que não podemos limitar a arte numa caixa. Se o fizéssemos, estaríamos a cortar as asas da liberdade de expressão do Ser Humano, passaríamos a viver num mundo com poucos detalhes e novidades.

Por isso, retomando o exemplo exposto na introdução: A exposição que foi limpa por uma funcionária, por esta achar que se tratava de lixo, pode ser realmente considerada arte? Talvez pela teoria formalista, a resposta seria não. A exposição não nos transmite, de facto, uma emoção estética, mas sim o caos após uma festa de ano novo. No entanto, é de facto mais interessante pensar que, por não existir uma definição concreta, este incidente deu aso a diversas conversas e discussões. E são essas trocas de ideias que nos fazem crescer enquanto indivíduos, que nos fazem refletir e ir mais longe. Perguntas que nos levam a outras perguntas e que nos obrigam a ver o mundo de diferentes perspetivas. Como disse Nelson Goodman, a pergunta “o que é arte?” deveria ser substituída pela pergunta mais adequada “quando há arte?”. E essa discussão está apenas no princípio.

 

FIM

 

BIBLIOGRAFIA

A ÉTICA E O BELO SEGUNDO KANT: PELA FACULDADE DO JULGAR. Consultado a 17 de maio de 2023. Disponível em: https://comum.rcaap.pt/bitstream/10400.26/10236/1/8..pdf

A teoria da forma significante de Clive Bell. Consultado a 7 de maio de 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PEINWNLibfw

Beleza e saúde mental: como o cérebro enxerga o belo. Consultado a 15 de abril de 2023. Disponível em: https://www.telavita.com.br/blog/beleza-e-saude-mental/

Clive Bell. Consultado a 24 de março de 2023. Disponível em: Clive Bell - Brasil | Crítico britânico | Britannica

Composition with Red Blue and Yellow. Consultado a 17 de maio de 2023, Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Composition_with_Red_Blue_and_Yellow

Empregada de limpeza confunde arte com lixo. Consultado a 24 de março de 2023. Disponível em: Empregada de limpeza confunde arte com lixo (jn.pt)

Estética (Conceito, Definição, Significado, O que é). Consultado a 21 de março de 2023. Disponível em: https://knoow.net/ciencsociaishuman/filosofia/estetica/

Experimentando com Mondrian: comparando o método de produção com o método de escolha. Consultado a 15 de abril de 2023. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/273574222_Experimenting_with_Mondrian_Comparing_the_method_of_production_with_the_method_of_choice

Filosofia da arte. Consultado a 1 de maio de 2023. Disponível em: https://aia.madeira.gov.pt/images/files/telensino/FILOS_11_Aulas1_2_20e23abril.pdf

Filosofia 11º ano - A Filosofia e a Arte. Consultado a 21 de março de 2023. Disponível em: Filosofia 11º ano - A Filosofia e a Arte 💭🎨 - YouTube

Introdução à Estética. Consultado a 24 de março de 2023. Disponível em: George Dickie - Bertrand Livreiros - livraria Online

Investigações Estéticas -Ensaios de filosofia da arte. Consultado a 26 de março de 2023. Disponível em: Investigações Estéticas de Jerrold Levinson - Livro - WOOK

Jackson Pollock. Consultado a 17 de maio de 2023, Disponível em: https://www.jackson-pollock.org/convergence.jsp

Kurzgesagt – In a Nutshell. Consultado a 15 de abril de 2023. Disponível em: https://sites.google.com/view/kgssourcesbeauty/startseite

Mona Lisa. Consultado a 5 de maio de 2023. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mona_Lisa

O juízo de gosto segundo Kant. Consultado a 17 de maio de 2023, Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/10/13/o-juizo-de-gosto-segundo-kant

O que é arte? Consultado a 26 de março de 2023. Disponível em: O que é arte? - YouTube

O Que é Proporção Áurea? Entenda Como Ela Mudou a História da Arquitetura. Consultado a 15 de abril de 2023. Disponível em: https://www.vivadecora.com.br/pro/proporcao-aurea/

O que nos torna atraentes para os outros. Consultado a 15 de abril de 2023. Disponível em: https://observador.pt/2015/04/10/nos-torna-atraentes-os-outros/

Os limites da arte. Consultado a 26 de março de 2023. Disponível em: Os limites da Arte - Opinião Sem Medo! (uai.com.br)

Piet Mondrian: obras e biografia. Consultado a 17 de maio de 2023, Disponível em: https://www.todamateria.com.br/piet-mondrian-obras-biografia/

Porque coisas bonitas nos fazem felizes - A beleza explicada. Consultado a 15 de abril de 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=-O5kNPlUV7w

Teorias essencialistas da arte. Consultado a 26 de março de 2023. Disponível em: https://criticanarede.com/aalmeidateoriasessencialistasdaarte.html

Teoria formalista. Consultado a 29 de março de 2023. Disponível em: https://jornaldefilosofia-diriodeaula.blogspot.com/p/verificando-que-diversidade-de-obras-de.html


[2]Kant foi um filósofo alemão  e um dos principais pensadores do Iluminismo. Os seus abrangentes e sistemáticos trabalhos na epistemologia, metafísica, ética e estética fizeram dele uma das figuras mais influentes da filosofia ocidental moderna.” Kant. Consultado a 16 de maio de 2023. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Immanuel_Kant

[3]“Proporção áurea é uma constante real algébrica irracional utilizada na arquitetura, nas artes e no design gráfico. Ela é representada pela divisão de uma reta em dois segmentos (a e b), sendo que quando a soma desses segmentos é dividida pela parte mais longa, o resultado obtido é de aproximadamente 1,61803398875. Este valor é chamado de “número de Ouro”.”  Proporção áurea. Consultado a 7 de maio de 2023. Disponível em: https://www.vivadecora.com.br/pro/proporcao-aurea/

[4] : Bell (1881-1964) foi um filósofo e crítico de arte inglês. Foi um dos primeiros membros do Grupo de Bloomsbury, composto por artistas e intelectuais britânicos. Estudou em Paris, local onde despertou o seu interesse pela arte. Foi um dos principais teóricos do movimento estético conhecido como "Formalismo". Para Bell, todas as obras que consideramos como arte são artefactos que despertam em nós, público, uma emoção estética. Esta seria uma resposta emocional que é desencadeada pela contemplação de formas e cores harmoniosas.

[5] Clive Bell, Arte, Trad. Rita C. Mendes, Texto & Grafia, 2009

[6] “Pieter Cornelis Mondrian (1872-1944) foi um pintor neerlandês modernista que criou o movimento artístico neoplasticism”. Piet Mondrian. Consultado a 17 de maio de 2023. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Piet_Mondrian

[7] Paul Jackson Pollock (1912-1956), conhecido profissionalmente como Jackson Pollock, foi um pintor norte-americano e referência no movimento do expressionismo abstrato. Jackson Pollock. Consultado a 17 de maio de 2023. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jackson_Pollock

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Guia compreensivo para o estudante: 10º ano, Ensino Regular - Aula ε

Valores

 Os valores são expressos através de juízos (A é B).
 É importante que se estabeleça a diferença entre juízos de facto e juízos de valor. Os juízos de facto são puramente descritivos, ou seja, seguem a fórmula A é B. Podem ou não coincidir com a realidade, ou seja, podem ser verdadeiros ou falsos. Tomemos com exemplo o seguinte juízo de facto:
  • O Boavista ganhou o campeonato pela última vez em 2000/2001.
 Este juízo de facto é, de facto, verdadeiro, mas não é isto que faz dele um juízo de facto. Igualmente, um juízo de facto pode ser falso e continuar a tratar-se de tal.
  • O Boavista ganhou o campeonato pela última vez em 2015/2016.
 O precedente juízo continua a ser um juízo de facto.

 Um juízo de valor é um juízo que atribui a algo um valor, quer seja positivo ou negativo, ético, estético, etc.
 Por exemplo:
  • Guernica é um quadro mais bonito que a Mona Lisa.
Guernica, Pablo Picasso
 Este juízo trata-se de um juízo de valor, pois trata-se da atribuição de um valor (ser um quadro mais bonito que a Mona Lisa) a algo (Guernica).

 Porém, podem-se exprimir valorações e preferências através de juízos de facto. Isto ocorre quando exprimimos um gosto, uma preferência, etc., na primeira pessoa. Por exemplo:
  • O meu quadro preferido é o Guernica.
 Aqui temos expresso um juízo de facto, pois estamos a exprimir uma preferência pessoal sobre determinado assunto (Guernica, neste caso), apesar de estarmos a atribuir valores estéticos.
 É convenção nestes casos assumir que a pessoa que faz o juízo está a dizer a verdade, visto que exprime juízos de facto sobre si mesmo.
 Existe também uma correlação entre os juízos de facto e os juízos de valor devido a esta aparente "irregularidade": Se alguém disser o juízo de facto "Penso que Sócrates agiu bem.", e tomar este juízo como verdadeiro, é implícito e obrigatório que aceite o juízo de valor "A ação de Sócrates foi boa." como verdadeiro.

Subjetivismo e objetivismo

 O subjetivismo defende que os valores de juízo são equivalentes a proposições de aprovação e desaprovação. Ou seja, defende que os juízos de valor e os juízos de facto são duas "entidades" distintas.
 Juntamente com o subjetivismo vêm associadas duas outras crenças: a relatividade e a historicidade.
 A relatividade defende que os valores são relativos a cada Homem, ou seja, para mim a escravatura pode não ser moralmente correcta, mas para o João pode ser.
 A historicidade defende que os valores vão mudando ao longo do percurso da História. Por exemplo, a escravatura era uma prática extremamente comum nos tempos de Sócrates, e era aprovada. Porém, actualmente, é extremamente reprovada pela maioria dos indivíduos.

 O objetivismo defende que os valores existem per si, ou seja, que os valores são algo completamente assente, e que são independentes do conhecimento humano. Defende assim que os juízos de facto e de valor não se distinguem verdadeiramente, pois os valores são, para os objetivistas, um facto do mundo, e um juízo de valor não passa de uma tentativa de descrever isso.
 Associados ao objetivismo vêm duas crenças, que se opõem às outras duas defendidas pelos subjetivistas: a absolutidade e a perenidade.
 A absolutidade defende que os valores são algo absoluto, e que não podem sofrer alterações.
 A perenidade defende que os valores são intemporais, e, por isso, não acompanham a História.
 Resumindo:


Posições filosóficas

 No 10ºano estudarás quatro posições filosóficas diferentes relativamente ao subjetivismo e o objetivismo; duas delas defendem o subjetivismo, e as outras duas o objetivismo.
 Vejamos:
  • Psicologismo e Emotivismo: Defendem o subjetivismo, devido ao facto de defenderem que os nossos sentimentos e opiniões pessoais definem os valores.
  • Naturalismo: Defende que os valores são uma qualidade intrínseca aos objetos. Ou seja, um livro é belo porque possui o valor de ser belo em si mesmo. Qualquer outra opinião está errada, pois este valor é objetivo e intrínseco ao livro. Defende, por isso, o objetivismo.
  • Ontologismo: Defende que os valores são ideias, ou seja, a expressão da racionalidade humana. Logo, são ideias que exprimem conceitos imateriais, e também inalteráveis e imutáveis. A defesa do objetivismo é diferente da defesa dos naturalistas pois os defensores do ontologismo afirmam que é a razão universal, algo comum a todos, que define e confere a objetividade. 
  Iremos agora distinguir o psicologismo do emotivismo:
  • Psicologismo: Os valores exprimem a natureza psico-comportamental do sujeito.
  • Emotivismo: Os valores exprimem as emoções e/ou sentimentos do sujeito.

 

Questões de primeira e segunda ordem

 Tomemos como exemplo a disciplina filosófica da estética, e o seguinte quadro:
At Eternity's Gate, Van Gogh
  • Questão de primeira ordem: Uma questão de primeira ordem é aquela que discute a preferência dos indivíduos A e B sobre o quadro, ou seja, é de primeira ordem a questão que coloca em cima da mesa juízos de valor (e.g. A: Gosto deste quadro, pois é belo. B: Não gosto deste quadro, pois não é belo.).
  • Questão de segunda ordem: Um questão é de segunda ordem se a questão colocada for sobre a natureza dos valores em si, e a sua objetividade/subjetividade. Neste caso, entramos no campo da metaestética (e.g. C: Será que este quadro possui intrinsecamente a propriedade de ser belo?).
 Com esta informação, podemos chegar à conclusão de que o subjetivismo e o objetivismo são ambos teorias de segunda ordem.

Argumentos a favor do subjetivismo

  1. Argumento da diversidade: Neste argumento defende-se que, simplesmente, os juízos de valor são extremamente diferentes de pessoa para pessoa (ou cultura para cultura).
  2. Argumento da estranheza de valores: Este argumento constata que, por exemplo, tal como para existir um copo têm que existir átomos, para que uma ação fosse objetivamente boa ou má (no caso da ética), os valores teriam de existir autonomamente e estarem presentes na ação. Tal parece-nos extremamente estranho, e como não temos indícios que tal exista, temos de aceitar o subjetivismo.
  3. Argumento da tolerância: Este argumento aplica-se à ética. Se estamos em dúvida se os valores são objetivos ou subjetivos, temos o dever de escolher a opção que cause menos confrontos entre diferentes culturas ou indivíduos, ou seja, o subjetivismo. 

Objeções a estes argumentos

  1. Um objetivista pode simplesmente constatar que a diversidade e divergência não são suficientes para negar que existe uma verdade absoluta. Lá porque existem pessoas que negam a existência de Deus e outras pessoas que afirmam a Sua existência não quer dizer que ambas as constatações estejam correctas, ou que Deus de facto não exista. Podemos apenas ainda não o saber.
  2. O objetivista pode argumentar da mesma maneira como argumentou no ponto 1: podemos simplesmente (ainda) desconhecer a existência autónoma destes valores.
  3. Uma objeção a esta linha de pensamento pode ser que, se aceitarmos o subjetivismo meramente por razões de tolerância, teremos também de aceitar e tolerar aqueles que não aceitam e toleram. Por exemplo, teríamos de aceitar alguém que acreditasse que matar os que não concordassem com ele em qualquer assunto (política, ética, estética, etc.) seria aceitável.

Argumentos a favor do objetivismo

  1. Argumento das consequências moralmente indesejáveis: Os objetivistas argumentam que, se aceitarmos o subjetivismo, teríamos de aceitar que linhas de pensamento moralmente reprováveis atualmente (e.g. as visões sobre a escravatura de antigamente, as visões sobre as "raças inferiores" dos nazis) não são nem mais nem menos corretas na nossa sociedade moderna. 
  2. Argumento da capacidade explicativa: Ao aceitar o subjetivismo, estamos a aceitar que não há um juízo de valor mais ou menos correto que outro, o que vai contra o que está profundamente enraizado em nós. Por exemplo, quando se discute a beleza do quadro Poker Game, existem certamente (para os objetivistas) maneiras melhores e piores de defender a beleza do quadro. Por exemplo, dizer que o detalhe é imenso será uma maneira certamente melhor de defender a beleza do que dizer que o quadro vendeu por mais de quinhentos mil dólares. Porém, se adotarmos um ponto de vista subjetivista, tal distinção desaparece, e as opiniões de especialistas, por exemplo, são uma perda de tempo.
  3. Poker Game
    Argumento da coincidência de valores: Neste argumento, o objetivista usa o argumento da diversidade contra o subjetivista, afirmando que existe uma enorme coincidência em valores morais e estéticos (embora com divergências, que se atribuem a erros e falta de formação e educação). Por exemplo, no campo da ética, virtualmente todas as sociedades modernas consideram reprovável a pedofilia e o homicídio. A melhor maneira de explicar isto é que estes valores existem objetivamente.
  4. Argumento do dissidente: Este argumento foca-se no relativismo cultural, e diz-nos que, visto que, segundo os subjetivistas, os valores, por exemplo, morais são o espelho da sociedade em que se encontram, como se explica que as sociedades mudem de valores? Afinal, os sujeitos teriam de considerar algo moralmente reprovável, dentro de uma sociedade em que esses valores se refletiam, algo que parece impossível de explicar usando o relativismo cultural.

Exercícios

1) Liga os seguintes termos à sua definição.
1 - Psicologismo
2 - Emotivismo
3 - Naturalismo

A - Os valores exprimem as emoções e/ou sentimentos do sujeito.
B - Os valores são uma qualidade intrínseca aos objetos.
C - Os valores exprimem a natureza psico-comportamental do sujeito.


2 - Completa a frase.
No objetivismo, os valores são ________.

3 - "Será que esta ação é eticamente correcta?» é uma questão de que ordem?


Resolução

1)
1 - C
2 - A
3 - B

2 - imutáveis

3 - Segunda ordem.

Referências

Pedro Galvão, António Correia Lopes: Preparação para o Exame Final Nacional Filosofia 11º ano
http://www.philosophy-dictionary.org/Axiological_subjectivism
http://sofos.wikidot.com/historicidade-perenidade
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/d/d2/Van_Gogh_-_Trauernder_alter_Mann.jpeg/800px-Van_Gogh_-_Trauernder_alter_Mann.jpeg
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/7a/Cassius_Marcellus_Coolidge_-_Poker_Game_%281894%29.png/1280px-Cassius_Marcellus_Coolidge_-_Poker_Game_%281894%29.png
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